A violência, que parece dominar o comportamento dos povos, aliada às artimanhas políticas brasileiras e globais e às atitudes recorrentes de descaso para com a vida humana têm-me feito refletir sobre a dureza desses tempos. O pior é que não tenho encontrado boas respostas, capazes de me trazer algum alento, por menor que seja. É natural que a sensação de angústia, aperto no peito e desesperança acabe invadindo o lado esquerdo do cérebro, não me restando outro caminho senão jogar parte desse peso para o outro lado, o direito, espaço acolhedor das utopias, dos sonhos e dos devaneios.
Nascido no milênio passado – e já portando um discreto tom cinza-prateado nos poucos cabelos que ainda me restam – vi-me bruscamente arremessado na idade madura, ao ouvir, pela primeira vez, um amigo dos meus filhos me cumprimentar assim: “Oi tio, tudo bem?”. Todo o peso daquele fatídico “tio” trouxe, de imediato, a lembrança dos meus professores que faziam parte do meu cotidiano infantil. Lá, naquele espaço que parece perdido no tempo, ouvíamos todos a frase que, há décadas, vem martelando meu subconsciente: Vocês são o futuro do Brasil”.
Por mais que se tente, não dá para não sentir esse peso de responsabilidade nas costas: “Somos o futuro do Brasil”. Nunca uma frase me soou tão familiar, tão intensa e dramática.
Naquela época, brincar de carrinho, jogar futebol, soltar pipa, jogar bola de gude, disputar campeonatos de futebol de botão e – máximo dos máximos – viver um amor platônico constituíam nosso universo de coisas que só nos davam prazer. O sofrimento vinha da escola: cumprir horários, usar uniforme, ouvir o sinal para troca das “tias”, virar a chave da cabeça e ter de engolir, durante intermináveis 50 minutos, aquela matéria que não despertava o menor interesse. No entanto, era imperativo continuar, pois não havia escolhas para nós – especialmente os mais humildes, vindos de famílias com escassos recursos financeiros. O estudo e a formação decerto abririam as portas para que saíssemos da pobreza e encontrássemos um lugar ao sol. Afinal, éramos o futuro do Brasil.
A verdade é que, até chegar à vida adulta, passei quase 15 mil horas sentado em uma cadeira, diante de alguém a me despejar algum tipo de conhecimento, encarado como verdade inquestionável, imutável e absoluta. Nunca ninguém me falou algo do tipo: “Aqui está tudo o sabemos sobre essa matéria; o que não sabemos é infinitamente maior, e as respostas ainda estão por vir”. “Temos variadas hipóteses matemáticas, a maioria delas não solucionada”. “Estamos longe da cura de várias doenças que nos assolam. Nosso parco conhecimento ainda é limitado e finito”.

Aperte “Fast Forward” para o terceiro milênio e você verá que quase nada mudou: as escolas continuam exigindo uniformes, ouve-se o mesmo toque das campainhas para sinalizar a troca de “tias” e são utilizados os mesmos artifícios de sempre, para saber se os alunos estão aptos ou não a subir “mais um degrau” na escala do saber. Nossos filhos continuam recebendo de seus professores conhecimento adquirido, mastigado, decorado… Quando pergunto se algum professor propõe a solução de algum problema ainda não resolvido ou se os professores demonstram suas vulnerabilidades, a resposta é sempre um categórico e invariável “não”.
O reflexo dessa disfunção aparece com clareza nos resultados do ENEM, onde as escolas mais bem classificadas utilizam recursos artificiais para aparecer bem na fita, galgar as melhores colocações no ranking e cooptar novos alunos, mais gente adestrada no conhecimento obsoleto, descontextualizado, invariavelmente distante da realidade mundial. Quais os interesses por trás de tantos atores do universo educacional?
Vivemos hoje um momento único na história, em que a tecnologia assumiu papel central em nossas vidas. Nos últimos anos, a tecnologia se moveu rapidamente para dentro dos nossos bolsos. E o universo de funcionalidades (apps) é simplesmente infinito, diretamente proporcional à criatividade humana.
Sabemos que crianças são muito mais criativas do que os adultos, têm menos amarras institucionalizadas, sentem menos vergonha e não se preocupam com reputações ou julgamentos. Crianças caem, levantam e continuam. Ainda assim, crianças não têm permissão de interagir com seus dispositivos móveis dentro de uma sala de aula. Ao sair da escola, sua atenção se expande literalmente, num mundo sem fronteiras: vídeos, conversas, interações múltiplas e simultâneas, nas quais não existe diferença entre mundo real e mundo virtual.
Todas essas transformações têm modificado substancialmente nossas vidas, exigindo respostas adequadas para lidar com situações antes inimagináveis. Câmeras fotográficas constituem um bom exemplo ilustrativo dessa nova realidade. Quando a antiga câmera fotográfica foi substituída pela digital, a escassez (36 fotos por rolo de filme, poucas delas aproveitáveis) foi substituída pela fartura de fotos nítidas e claras. O dilema consiste agora em saber quais dessas fotos escolher para compor o álbum, o que faz com que a impressão em papel seja invariavelmente relegada a segundo plano.

Pelo exemplo, pode-se inferir que, no bojo dos benefícios trazidos pelas mudanças tecnológicas, existem também problemas e novos desafios a serem superados. No mundo dos negócios, não é diferente: o contexto do problema mudou, e com isso, os modelos de negócio (e novas oportunidades) também. A grande empresa que dominava o mercado foi praticamente pulverizada e faliu; em detrimento de de inúmeras outras empresas, mais rápidas e dinâmicas. Hoje não é o peixe pequeno que come o grande, e sim o mais rápido que come o mais lento.
O problema reside em ter de competir com a eterna escassez de tempo, gerada pela abundância de informações transmitidas pelo universo tecnológico na palma das mãos. As redes sociais, por exemplo, sugam demasiadamente nossa atenção e roubam precioso tempo, que poderia ser gasto com escola, família, amigos, conhecidos e trabalho. A dopamina despejada na corrente sanguínea, promovida pelos “likes”, curiosidades e pela avidez de tentar estar sempre por dentro do que está acontecendo em tempo real, constitui nosso mais novo vício.
Vivemos hoje numa economia baseada na atenção, que se tornou um dos ativos mais preciosos do mercado. Apesar de dispormos de recursos tecnológicos praticamente ilimitados, temos as mesmas limitadas 24 horas para comer, trabalhar, estudar e dormir. Nesse contexto, é natural que tantas empresas, apps, informações e redes sociais disputem ferrenhamente nossa atenção. Tanto que, ao acordar, a primeira coisa que fazemos é pegar o celular para ver se não estamos perdendo alguma informação, capaz de alterar o rumo de nossas vidas. Tudo isso liga um alerta, e a bandeira vermelha sobe.
Nesse cenário complexo, onde somos educados como no milênio passado, onde a tecnologia vem tomando grande parte do nosso tempo – e não conseguimos frear o ímpeto de checar o novo “like” em nossa última foto de viagem – fica claro que, mal aprendemos a lidar com o mundo, percebemos que ele foi para o outro lado.
O passado linear sobre o qual projetávamos nossa existência não serve mais como parâmetro e bússola para o futuro, dado que as tecnologias que permeiam nossas vidas não são lineares – e sim, exponenciais – e atropelam os modelos) antiquados, sem pedir licença.
Enquanto aquele chip do celular ou do computador dobra sua performance a cada 18 meses, imagens de ressonância cerebral dobram de resolução a cada ano. Enquanto a performance dos drones dobra a cada nove meses e, os avanços no sequenciamento genético, no campo de biotecnologia, dobram a cada seis meses!
Nunca vimos tantas mudanças acontecerem em toda a história da humanidade. Se a sensação de que estamos em outra realidade é iminente e real, o que devemos pensar do governo, da família, da religião, da educação, das leis, da privacidade, dos esportes, da mídia e da ciência, entre outros etc.? O mundo conhecido se apresenta não só como catalisador de imensos desafios, como também um campo fértil e atraente para o surgimento de enormes oportunidades, antes sequer imaginadas.
Robôs, inteligência artificial, avatares, redes computacionais (onde qualquer objeto, de um simples lápis até um brinquedo, podem tornar-se fonte de interatividade), bio e nanotecnologia, computação quântica. Esses elementos – considerados isoladamente ou em conjuntos e convergências inimagináveis – já estão em curso, e bilhões de dólares estão sendo investidos no exato momento em que você lê este texto.
Em 2020, teremos 3 bilhões de pessoas a mais conectadas na Internet; teremos mais de 100 milhões de dispositivos conectados em rede e 1 trilhão de sensores; câmeras em telefones, drones, carros autônomos, satélites, tudo sendo gravado e interpretado em tempo real por inteligência artificial. Nossa privacidade se foi? Ou teremos, pelo contrário, maior transparência? Nos próximos 20 a 30 anos, 48% das profissões serão substituídas por uma mistura de robôs com inteligência artificial. Duvida? O que você acha do Waze ou AirBnB substituindo empregos até então existentes (e criando outros!!)?

A tecnologia sempre criou novos empregos (vide programadores de computador, vloggers, bloggers e youtubers, faturando alguns milhões por ano e retirando poder e renda da mídia estabelecida). A sociedade se adaptará? O Estado precisará bancar um salário mínimo básico para quem ficar alijado desse processo irreversível de mudanças? Trabalharemos menos dias na semana? Haverá espaço para se fazer o que se gosta ou desenvolver um talento único? Perderemos o medo de que nossa luz brilhe?
Se nossas profissões correm risco, o recurso de abominar essas tecnologias e negar esses avanços poderia ser uma alternativa. Porém, se o sistema imunológico de autodefesa mental for desligado, há uma boa chance de atuar e prosperar nesse cenário complexo, que descortina inúmeras possibilidades. Quais seriam então as chaves de desligamento desse sistema imunológico?
Primeira chave: saber olhar o outro com empatia e sem preconceitos, o que abre espaços para a escuta afetiva. Entender que os problemas que afetam o outro podem também atingir a nós mesmos, em determinado momento. Já repararam que as livrarias exibem um enorme catálogo de livros, mas não dispõe de uma única seção – por menor que seja – destinada à ajuda ao próximo?
Segunda chave: não focar no que está acontecendo de ruim neste mundo; mudar o tom da mente para o que é positivo. Otimismo. Em suma, desligar um pouco a TV e ver como estamos muito melhores A quantidade de guerras, a fome, a miséria e as taxas de mortalidade infantil nunca estiveram tão baixas, a ponto de poderem desaparecer das estatísticas nas próximas décadas. A democracia aumenta; o uso de energias renováveis e mais limpas é cada vez maior e mais barato – inclusive ameaçando a soberania de inúmeras empresas e sistemas, baseados em energias poluentes.
Terceira chave: pensar em resolver problemas intransponíveis ou aparentemente insolúveis, que afetam uma quantidade enorme de pessoas. Ideação. E é bastante simples descobrir quais são esses problemas: basta assistir aos primeiros 25 minutos de qualquer telejornal, notório espaço das notícias negativas, que atraem a atenção do cérebro para o instinto de sobrevivência. Em suma, hoje o mundo pode ser mudado. Não é mais necessário pedir licença, para ir em frente com aquela ideia impossível!
Quarta chave: utilização inteligente dos inúmeros recursos disponíveis. Não é mais necessário dispor de uma sala física, um assistente, um telefone. Seu escritório é seu telefone, sua sala é uma loja de café com acesso à Internet e seu assistente pode ser virtual, seja humano, seja um robô, com inteligência artificial. O dinheiro seguirá o rastro da ideia bem descrita e bem arquitetada/prototipada, criada com o propósito de resolver problema humano importante. Propósito.
Quinta chave: saber que não estamos sozinhos e que ninguém é suficientemente capaz de mudar esse planeta sem a ajuda do outro.. Nesse contexto, colaboração e compartilhamento são as palavras-chave para resolver situações e problemas complexos nos quais nos envolvemos. Pense bem: enquanto Bilbo Bolseiro precisou da ajuda da Sociedade do Anel [1]; Jesus Cristo contou com o auxílio de 12 apóstolos. Bill Gates, por sua vez, tinha o Paul Allen e o Steve Ballmer para ajudá-lo, enquanto Steve Jobs precisou da colaboração do Steve Wozniak e Mike Markkula.
Sexta chave: criatividade. Saber conectar os pontos ainda conectados. Com a extrema abundância de informações e conhecimentos, com o vasto espectro de produtos e de iniciativas, as possibilidades se tornam praticamente infinitas. Mas não dá para ser criativo apenas olhando para o próprio quintal. É preciso sair do casulo, experimentar novos ambientes, pessoas novas, sistemas novos e estar aberto a ouvir as opiniões contrárias.
A vitalidade que surge do choque de ideias é absolutamente imprescindível para o entendimento de problemas complexos. Leonardo da Vinci já dizia que a simplicidade representa o último grau de sofisticação e é quando a solução para esses problemas surge que dizemos: “por que nunca pensei nisso antes?” Não se pode esquecer que uma ideia muito boa depende de colisões de ideias medianas. E ideias medianas dependem de colisões de ideias ruins. Então, é preciso coragem para ter ideias ridículas e colocá-las no mundo.

Sétima chave: curiosidade. É preciso ter curiosidade pelo outro, é preciso ter curiosidade para especular sobre o que fazer para transformar este mundo em um o mundo melhor. É preciso ter curiosidade para pensar diferente e abrir espaços novos para criar, para encarar o medo de contar sua ideia para o outro e receber a ajuda necessária para fazer acontecer. É a curiosidade que moveu inúmeros desbravadores dos mares e das terras, observadores das estrelas e que instiga, cientistas, na busca da saúde e empreendedores, na busca da riqueza. É a curiosidade que nos fará sair de círculos fechados e entrar nas mais diversas redes abertas, para que tenhamos condições de resolver alguns dos maiores desafios da humanidade.
Mesmo com todas essas chaves em mãos, forçoso reconhecer que ainda há inúmeras possibilidades de falhar. O dia anterior a qualquer grande descoberta é uma absoluta incógnita. Que o digam Galileu Galilei, Pedro Álvares Cabral e Cristóvão Colombo, que assumiram enormes riscos em suas buscas e ideias. Exatamente por isso, é imperioso saber assumir riscos, pois a estrada do corajoso é pavimentada de falhas. Dessa forma, considerar o pensamento crítico que avalia estratégias e mostra os riscos é absolutamente fundamental para consubstanciar nossos bons intentos.
A educação em tempos de criatividade requer o uso de competências que nos fazem humanos e nos diferenciam de qualquer outra espécie. O futuro espera muito de nós. E a melhor maneira de prever o futuro é cocriá-lo. Das mentes para as mãos, das mãos para o mundo e do mundo para o universo. Afinal de contas, o céu não é mais o limite!

Fontes bibliográficas:
DIAMANDIS, Peter. Abundance, The Future is better than you know p.245-319

Kodak Bankruptcy: http://www.businesstoday-eg.com/opinion/banking-and-finance/kodak- files-for-bankruptcy-no-more-kodak-moments.html

Categorias: Educação

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